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Mercado de tecnologia em colapso

Esse mês várias notícias na área de tecnologia me deixaram intrigado e assustado. Meus sentimentos como um profissional e como um intusiasta da área estão navegando em diferentes direções. Esse texto é uma mera divagação sobre o tema.

Detalhe da pintura Evening News—Subway Riders. Francis Luis Mora, 1914
Detalhe da pintura Evening News—Subway Riders. Francis Luis Mora, 1914

Vou começar o texto culpando IA por tudo o que eu escrevo a seguir. Se você quer mais algum motivo pela minha recusa de usar LLMs, esse texto terá vários.

Nos últimos meses nós vimos algumas notícias que em primeiro momento me assustaram muito, deixaram meu coração apertado e um pouco pessimista sobre o futuro do mercado de tecnologia. Mercado esse que eu faço parte em dois níveis.

O lançamento da Steam Machine por mais de U$ 1.000 (mil dólares); Microsoft demitindo (e planejando demitir) mais de quatro mil funcionários, maior parte deles da divisão do Xbox; e Sony informando que não vai mais fabricar discos de jogos para Playstation. Isso apenas na última semana. Mas não vamos esquecer que nos últimos meses as três fabricantes de videogame aumentaram os preços de seus consoles, indo na contramão das últimas gerações do equipamento, botando culpa no aumento dos preços dos chips de memória (RAM e SSDs) que também tá impactando nos computadores pessoais. A Apple aumentou os preços de seus produtos, que já não eram baratos.

É claro que isso tudo é ruim. Eu comecei a falar para meus amigos, em tom extremamente sarcástico, que meus videogames são de "última geração" porque eu sinceramente tenho minhas dúvidas se nós vamos ter uma nova geração tão acessível quanto a anterior. Sim, eu sei que videogame é um luxo e não era tão acessível assim para começo de história, mas a pressão econômica era que os preços baixassem com o tempo, que você pudesse comprar um videogame da geração passada por menos do que a geração anterior e ainda poder usá-lo sem problema.

Nada mais segue essa lógica. Tecnologia começou a ser cada vez menos acessível a cada inovação. E essa nova lógica tá valendo tanto para nós consumidores finais quanto para as próprias fabricantes. O que nos coloca em um ciclo vicioso extremamente perigoso.

E enquanto eu tava nesse parafuso, um post do Augusto apontou que essa pressão que tá aumentando os preços de hardware também pressiona desenvolvedores de software a otimizar seus produtos para melhor usar RAM e CPU "atuais".

Isso me fez pensar.

Meu notebook atual tem 7 anos de uso, um modelo relativamente novo para a época. Comprei para substituir um outro notebook que estava parando de suprir as minhas necessidades após 5 anos de uso. Na época eu tinha cabado de me mudar para uma nova cidade, morando num apartamento pequeno e de aluguel, sem saber por quanto tempo. Eu não poderia ter um desktop já que minhas prioridades estavam mais em me mover do que ter o maior e melhor equipamento. Ao mesmo tempo eu precisava de um notebook que fosse bom o suficiente para rodar os meus projetos do trabalho de maneira minimamente viável, e o meu anterior tava começando a prejudicar o trabalho. O atual ainda me serve perfeitamente após alguns upgrades e o uso de um sistema operacional relativamente leve.

Estou falando isso para exemplificar o meu ponto: a nossa tecnologia de consumo não evoluiu tanto assim nos últimos anos.

Enquanto os ciclos de inovação estão ficando mais caros, eles também tão ficando menores e imperceptíveis. A novidade no mundo dos celulares hoje são telas dobráveis, mas todos os outros modelos têm convergido para o mesmo bloco preto parecendo uma barra de chocolate, com qualidade de imagem boa o suficiente para assistir qualquer vídeo em sua tela na distância de um braço. Vários jogos que eu jogo no meu computador hoje são também lançados para celular e apenas colocam algumas firulas gráficas no modo computador. Novas câmeras se destacam pelo processamento da foto, não pela captura.

Em resumo: Você não precisa de um dispositivo novo. E as próprias empresas sabem disso.

A obsolecência programada de dispositivos "inteligentes" de consumo quase sempre hoje é forçada por software. Salvas algumas excessões, fabricantes deixam de atualizar a versão do seu sistema ou dos programas no teu dispositivo por qualquer motivo (válido ou não) e você se sente forçado a pegar o novo, mesmo que o seu atual funcione relativamente bem. Claro, existem limitações físicas como deterioramento da tela ou da bateria, mas uma bateria pode ser trocada relativamente fácil e uma tela dura bem mais que uma bateria.

O que está acontecendo atualmente é que o foco das empresas mudaram para a prestação de serviços web, principalmente IA, forcando que elas mesmos tenham dificuldade em justificar o custo da inovação em dispositivos de consumo.

A boa notícia nesses tempos tribulosos é que as pessoas começaram a ver além da propaganda consumista e começam a ver seus próprios dispositivos de maneira mais sustentável. O aumento de uso de Linux em computadores por usuários finais, encabeçada por um forte investimento da Valve no SteamOS, mostra que o movimento é esse. A Microsoft a cada ano extendendo o suporte ao Windows 10 só reforça a tendência.

Minha esperança é que essa tendência e esse movimento perdure. Que nós voltemos a ver tecnologia como ferramentas para suprir nossas necessidades ao invés de soluções procurando problemas. Quando isso acontecer, talvez os preços voltem a baixar. Não porque as inovações vão ficar mais baratas, mas porque o nós temos é o suficiente.


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